quarta-feira, 21 de abril de 2010

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Eternal...

Saíste dos nossos sonhos para entrar nas nossas vidas e alegrar a casa.

Com um olhar doce, frágil e cintilante conquistaste para sempre os nossos corações. Aprendeste a viver em família e a respeitar as regras de ouro, assim como nos ensinaste a respeitar o teu espaço e a satisfazer os teus caprichos.



Brincalhona, energética, atenta, meiguinha, fiel, preocupada, generosa, inteligente, delicada, por vezes vingativa (… quando te deixávamos sozinha em casa usavas sempre os teus trunfos mal cheirosos quando nos querias castigar!...) ou desobediente quando, em algum momento, não conseguisses resistir a alguns estímulos, especialmente: cães à vista ou comida… eram a tua perdição, aquilo que te tirava do sério e te conseguiam fazer esquecer tudo aquilo que te ensinámos. A domesticação era rapidamente suplementada por sentimentos e necessidades bem mais genuínas da natureza canina.




Em todo o caso, acho que sempre soubeste viver como um Ser Humano num corpinho minúsculo de animal. Estavas muito mais próxima do conceito de se “ser humano” do que qualquer ser humano!



De alguma forma parecia que em certas circunstâncias parecias até incomodada com o instinto selvagem dos da tua espécie. Nessas alturas procuravas esconder e proteger-te por de trás das minhas pernas, ou melhor dizendo, tornozelos! Sempre que te aparecesse um cão tipicamente selvagem e com movimentos e comportamentos aparentemente descontrolados (certamente pela emoção de te ver… um exemplar canino estranhamente pequeno e eléctrico como eras!), reagias com desagrado pelo abuso de confiança! Nessas situações, a insegurança da tua pequenez (física), fazia crescer a tua capacidade de imposição de respeito para com os cães com dez vezes o teu tamanho. Sempre que insistiam em se aproximarem sem convite, bastava um simples rosnarzinho e um arregalar de dentes. Acabavam por respeitar a tua vontade e ficavam nervosos por não poder explorar um semelhante feminino, de porte pequeno e tanta energia fernética.




Uma vez conquistado o respeito, desafiava-los, não parando quita um segundo, correndo de um lado para o outro e fazendo uma espécie de dança de encantamento rotativo de pelo menos 3 voltas sobre ti mesma para o mesmo lado, a uma velocidade supersónica, seguido de um arranque em linha recta (sabe-se lá para onde?!?!). Era no mínimo intimidador para qualquer cão com mais de 2,700 kg que tinhas e que te permitiam tal agilidade!




Fazias fintas a todos que se metessem no teu caminho, na tentativa de que te seguissem e entrassem no teu jogo, onde sabias que brilhavas e em que tudo estava sobre o teu controlo e domínio… Nas tuas sete quintas! Eram momentos em que te sentias verdadeiramente eufórica!



A tua arte… como é que a hei-de chamar?… Arte Locomotiva… impressionada todos, ao que todas as pessoas comentavam: “Olha um cão a pilhas!” ou “Parece que está ligado à corrente!”… E efectivamente parecia. Serias a versão Obikwelu canino?!



Por vezes também deste ares de quem teria sucesso na modalidade de saltar barreiras: quando te deslocavas na tua corrida energética e encontravas um (pequeno) obstáculo, projectavas o teu corpo num salto de gazela: elegante e segura, quase que parecia em câmara lenta.



Eras como a nossa maninha mais nova, no entanto haviam momento que parecias a mais velha. A tua personalidade foi sempre versátil, inteligente e de encontro ao que te era mais importante: ver-nos felizes. Parecia até que sentias uma certa responsabilidade para com a nossa felicidade.



Ansiavas por uma festinha de elogio por algo bem feito. Assim que a recebias parecia que tinhas acabado de restabelecer o nível de combustível de Formula 1 e, e lá ias tu…




Quando os elogios recaíam sobre matérias mais educacionais e pedagógicas, baixavas as orelhinhas e os teus olhos brilhavam de contentamento, ao mesmo tempo que o “couto” (Couto: extremidade de cauda cortada logo após o nascimento, para manter os traços da raça… conforme defendem…) abanava freneticamente, como se quisesse dizer algo como: “Consegui!”



A sua costela de glutona sempre foi um ponto a favor de a ensinarmos a fazer algumas habilidades: em troca do famoso “Biscoito” (conforme te era familiar) que poderia ser qualquer alimento, pois não recusavas nada, mas que no entanto eram habitualmente os “snaks” para os cães. Desta forma conseguíamos subornar-te a fazer as mais variadas modalidades:





- sentar-te (“Senta!”);



- deitares-te (“Deita!”);



- ficares imóvel, deitada com as patas para cima (“Quieta!” ou “Morta!”);



- ires para baixo dos móveis e manteres-te lá até que te chamássemos (“Vai lá para baixo!... Quieta! ......................................... Vem cá!”);



- dares a patinha (“Dá a patinha!”);



- pores-te em pé nas patas traseiras (“Em pé… em pé… em pé! – tínhamos que dizer repetitivamente e fazer o movimento ascendente com os nossos braços);



- dares uma volta sobre ti própria (“Dá voltinha… voltinha… voltinha! - também era aconselhado a repetição… sobretudo quando não tinhas vontade nenhuma!!);



- e nunca conseguimos fazer-te rebolar obre ti própria… estava em processo… Mas acho que na realidade não quiseste fazê-lo porque devias recear onde é que tudo isto poderia chegar! Que mais inventariamos?!).



Com estes exercícios ensinamos-te a lidar com o teu nervosismo e a ser paciente e a entender que tudo na vida tem de ser conquistado. Seria uma espécie de emprego. Nunca te reformaste por completo pois sempre gostaste do teu ofício, já que era muito mais que um ofício: era um biscoito, era uma brincadeira, eram festas, mimos, gargalhadas, alegria e boa disposição. Ficavas realmente satisfeita com a recompensa (fosse ela qual fosse)… e quanto maior o tempo de espera melhor ela sabia.



Tantos momentos e motivos para recordar e sorrir:


- a primeira vacina;


- idas à praia;


- o único banho do mar, quando voluntariamente foste a correr atrás de mim e deste um dos teus saltos de gazela para ultrapassar por cima do obstáculo que se apresentava – neste caso uma ondinha – mas rapidamente te apercebeste de que não contavas com um cenário tão molhado e frio! Lá te safaste rapidamente;


- escapadelas e fugas de casa, que apenas nos eram apercebidas quando vizinhos avisavam que andavas feliz da vida a passear no jardim ou na zona comercial (A. C. Santos), devia depender do teu estado de espírito no momento;


- os banhos na banheira;


- as fugas e aproximações do secador (parecia uma relação de amor-ódio, por um lado gostavas do quentinho, mas por outro o vento incomodava-te);



- no Natal em que te apanhámos em cima da mesa da sala de jantar com o focinho dentro da tigela da salada de alface e tomate!;



- as sessões fotográficas com as roupas das bonecas;



- o consolo que nos davas quando nos vias tristes (aproximavas-te e davas encontrõezinhos com o focinho);



- a alegria que sentias quando dizíamos “Vamos à rua!” ou quando ouvias a pegarmos na trela;



- como fugias das crianças que te queriam dar festas (já sabias que às vezes te podias sujeitar a alguma demonstração de carinho mais violenta);



- como reagias cada vez que te cantávamos as lenga-lengas que inventámos para os momentos pré-biscoitos… Ficavas doida só de nos ouvir:



Oh Pituxa olé!

Oh Pituxa olé!

Oh Pituxa olé!

Oh Pituxa olé olé!

Biscoito, biscoito!



Ou



Se-a Pituxa é muito linda e quer um biscoito!

(duas palmas)

Se-a Pituxa é muito linda e quer um biscoito!

(duas palmas)

Se-a Pituxa é muito linda e quer um biscoitinho….

Então vai ter de vir cá dar um beijinho! (mas não ia, hehe);



- as horas a fio que ficavas deitadinha a apanhar banhos de sol (era uma verdadeira busca incessante pelo calor, fosse próximo da janela ou ao lado do aquecedor no Inverno);


- (...)



“Saíste dos nossos sonhos, entraste nas nossas vidas e agora manter-te-ás simultaneamente em ambas”.